Parti
para Buenos Aires na madrugada do dia 10 de Fevereiro de 1981. Lembro-me que nessa
terça-feira levantei-me no instante imediatamente anterior ao toque do despertador,
mesmo a tempo de estender o braço e de o impedir de me acordar. Dei um salto da
cama ainda a sacudir da memória um sonho qualquer em que, como de costume, tu
entravas e em que caminhávamos juntos na praia, apanhando pedras lisas e comendo
lapas cruas na foz do rio Mira.
Tinha
muitas saudades tuas, mas essas iam custar mais a sacudir do que o sonho que a
memória guarda nos primeiros instantes da manhã. Era dia de atravessar o Atlântico
para um novo começo, e eu tinha mesmo de me pôr a andar daí. Aquele avião é que
eu não ia perder de certeza!
Acho
que todos vivemos dilemas existenciais destes, que apesar de nos parecerem evidentes,
são a maior parte das vezes óbvios demais para serem notados. É que se
repararmos bem, entre as nossas extremidades vivemos em dois mundos
completamente distintos. Os nossos pés nunca estão em dois lugares ao mesmo
tempo e por isso, para passarmos de um lugar para outro, temos que pagar o
tributo ao tempo e espaço que fica entre ambos, investindo o número de passos
necessários a lá chegar. Quanto a isso não há nada a fazer. Mas ao contrário
dos pés, a nossa extremidade oposta permite-nos estar em dois locais ao mesmo
tempo. E saltar de um tempo ou lugar para outro, sem termos de nos dar ao
trabalho de percorrer o espaço que medeia entre ambos. Como eu, que naquele
momento estava prestes a entrar num avião, ansiando pelo futuro, ao mesmo tempo
em que estava consciente de que o meu coração ainda vivia no passado.
Talvez
seja por isso que o nosso cérebro tem duas metades. Uma, para pensar e viajar
no mar dos sonhos e das memórias e a outra para controlar o corpo, e fazer a
diplomacia necessária entre o corpo e a mente, entre o viajante e o sonhador. Porque
todos andamos repartidos entre viagens intermitentes no tempo, revisitando outros
lugares num constante regresso ao passado, e pela tendência natural de quem tem
os pés bem cravados no chão, de se deixar levar por eles, que nos querem fazer
dançar e andar para a frente. Que insistem em nos levar com eles, como se
ansiassem pelo futuro ainda mais que nós.
Estava
nesta horrível luta interior, dividido entre querer-te, que me pedia para
arrombar a porta e fazer uma cena, e respeitar-te, que me levava a abrir mão de
ti e deixar que fosses tu a escolher o teu caminho. Acabei por chegar à
conclusão que naquele momento o amor posto em prática era respeitar a tua
escolha, fosse ela qual fosse, custasse o que custou. E para o bem ou para o
mal, este amor, escolhi vivê-lo assim.
Já no
aeroporto, de check in feito e os headphones na cabeça, despeço-me ultima
vez da minha vida enquanto aguardava pacientemente o embarque.
Lembro-me
de pensar na maneira como, depois da primeira vez em que por acaso nos vimos, fomos
apresentados um ao outro, numa festa em casa de um amigo comum. E de como me apaixonei
imediatamente no momento em que fomos apresentados e em que nos reconhecemos
olhando-nos olhos nos olhos, sorrindo. Também não me esqueço de apenas segundos
depois ter-me voltado para o Domingos Feliciano e de lhe ter dito: “desconfio que se esta miúda quisesse virava
a minha vida do avesso.”. E viraste mesmo.
Todos
os amores surgem de uma fusão irrepetível entre duas pessoas, cuja união é única
como uma impressão digital. E por isso, cada um tem uma maneira própria de ser
vivido. Enquanto uns perduram, outros nascem e morrem num instante. Mas não são
menos verdade, nem menos amor. Escolhi não entrar naquela guerra, talvez por
cerimónia respeito ou cobardia, não sei. Nem nunca percebi muito bem se fui bestialmente
forte ou especialmente fraco. Mas naquela altura achei que era tempo de me
retirar e preferi a luta interior a tentar mudar o mundo a partir pedra com as
próprias mãos, desistindo de viver o que poderia ter sido pelo que é, aqui e
agora. Aceitando o amor que nos escapa por entre os dedos da mesma maneira que
se aceita aquele que fica connosco. Sabendo viver cada amor que se tem, sem
medos, rodeios ou reservas, mas também sem imposições, de coração aberto e a
cabeça levantada. Às vezes, simplesmente guardá-lo cá dentro. E seguir caminho.
Sentado
no avião e voltado para a pista enquanto este acelerava, observei pela última
vez aquela lenta dança comandada pela torre de controlo. Ao descolar reconheci que
aquela era uma generosa segunda oportunidade que a vida me reservava. Uma
oportunidade única para começar de novo, apesar de todo o ressentimento, de
todo o amor e de toda a saudade. E que a esperança contida nessa ideia por si
só bastava para me dar toda a força e a tranquilidade que me andavam a faltar
nos últimos tempos. Realmente, é mesmo a esperança que andamos, esse cocktail
inflamável feito de afectos e de mudança que me ia ajudar a criar as novas
memórias de que eu tanto precisava para te esquecer.
Buenos
Aires seria a nova página em branco onde só iria entrar o que eu quisesse. Sem
manchas, rasuras ou ilusões.
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