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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

7. A partida


Parti para Buenos Aires na madrugada do dia 10 de Fevereiro de 1981. Lembro-me que nessa terça-feira levantei-me no instante imediatamente anterior ao toque do despertador, mesmo a tempo de estender o braço e de o impedir de me acordar. Dei um salto da cama ainda a sacudir da memória um sonho qualquer em que, como de costume, tu entravas e em que caminhávamos juntos na praia, apanhando pedras lisas e comendo lapas cruas na foz do rio Mira.
Tinha muitas saudades tuas, mas essas iam custar mais a sacudir do que o sonho que a memória guarda nos primeiros instantes da manhã. Era dia de atravessar o Atlântico para um novo começo, e eu tinha mesmo de me pôr a andar daí. Aquele avião é que eu não ia perder de certeza!

Acho que todos vivemos dilemas existenciais destes, que apesar de nos parecerem evidentes, são a maior parte das vezes óbvios demais para serem notados. É que se repararmos bem, entre as nossas extremidades vivemos em dois mundos completamente distintos. Os nossos pés nunca estão em dois lugares ao mesmo tempo e por isso, para passarmos de um lugar para outro, temos que pagar o tributo ao tempo e espaço que fica entre ambos, investindo o número de passos necessários a lá chegar. Quanto a isso não há nada a fazer. Mas ao contrário dos pés, a nossa extremidade oposta permite-nos estar em dois locais ao mesmo tempo. E saltar de um tempo ou lugar para outro, sem termos de nos dar ao trabalho de percorrer o espaço que medeia entre ambos. Como eu, que naquele momento estava prestes a entrar num avião, ansiando pelo futuro, ao mesmo tempo em que estava consciente de que o meu coração ainda vivia no passado.
Talvez seja por isso que o nosso cérebro tem duas metades. Uma, para pensar e viajar no mar dos sonhos e das memórias e a outra para controlar o corpo, e fazer a diplomacia necessária entre o corpo e a mente, entre o viajante e o sonhador. Porque todos andamos repartidos entre viagens intermitentes no tempo, revisitando outros lugares num constante regresso ao passado, e pela tendência natural de quem tem os pés bem cravados no chão, de se deixar levar por eles, que nos querem fazer dançar e andar para a frente. Que insistem em nos levar com eles, como se ansiassem pelo futuro ainda mais que nós.
Estava nesta horrível luta interior, dividido entre querer-te, que me pedia para arrombar a porta e fazer uma cena, e respeitar-te, que me levava a abrir mão de ti e deixar que fosses tu a escolher o teu caminho. Acabei por chegar à conclusão que naquele momento o amor posto em prática era respeitar a tua escolha, fosse ela qual fosse, custasse o que custou. E para o bem ou para o mal, este amor, escolhi vivê-lo assim.

Já no aeroporto, de check in feito e os headphones na cabeça, despeço-me ultima vez da minha vida enquanto aguardava pacientemente o embarque.
Lembro-me de pensar na maneira como, depois da primeira vez em que por acaso nos vimos, fomos apresentados um ao outro, numa festa em casa de um amigo comum. E de como me apaixonei imediatamente no momento em que fomos apresentados e em que nos reconhecemos olhando-nos olhos nos olhos, sorrindo. Também não me esqueço de apenas segundos depois ter-me voltado para o Domingos Feliciano e de lhe ter dito: “desconfio que se esta miúda quisesse virava a minha vida do avesso.”. E viraste mesmo.
Todos os amores surgem de uma fusão irrepetível entre duas pessoas, cuja união é única como uma impressão digital. E por isso, cada um tem uma maneira própria de ser vivido. Enquanto uns perduram, outros nascem e morrem num instante. Mas não são menos verdade, nem menos amor. Escolhi não entrar naquela guerra, talvez por cerimónia respeito ou cobardia, não sei. Nem nunca percebi muito bem se fui bestialmente forte ou especialmente fraco. Mas naquela altura achei que era tempo de me retirar e preferi a luta interior a tentar mudar o mundo a partir pedra com as próprias mãos, desistindo de viver o que poderia ter sido pelo que é, aqui e agora. Aceitando o amor que nos escapa por entre os dedos da mesma maneira que se aceita aquele que fica connosco. Sabendo viver cada amor que se tem, sem medos, rodeios ou reservas, mas também sem imposições, de coração aberto e a cabeça levantada. Às vezes, simplesmente guardá-lo cá dentro. E seguir caminho.

Sentado no avião e voltado para a pista enquanto este acelerava, observei pela última vez aquela lenta dança comandada pela torre de controlo. Ao descolar reconheci que aquela era uma generosa segunda oportunidade que a vida me reservava. Uma oportunidade única para começar de novo, apesar de todo o ressentimento, de todo o amor e de toda a saudade. E que a esperança contida nessa ideia por si só bastava para me dar toda a força e a tranquilidade que me andavam a faltar nos últimos tempos. Realmente, é mesmo a esperança que andamos, esse cocktail inflamável feito de afectos e de mudança que me ia ajudar a criar as novas memórias de que eu tanto precisava para te esquecer.
Buenos Aires seria a nova página em branco onde só iria entrar o que eu quisesse. Sem manchas, rasuras ou ilusões.

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