Misérias, futricas e esputiniques
(ou de como a verdade é uma opção que exige senso, esforço de imparcialidade e o são convívio com a mentira e de como existem tantas verdades quantos os homens e que por isso apenas nos resta cuidar construtivamente do nosso jardim, para que sejamos capazes de perdoar e deixar que os todos possam dele colher os frutos das nossas árvores interiores e em última análise conservarmos a capacidade de sonhar)
Talvez por defeito de profissão, sempre me intrigou a verdade. Na vida, todos temos que tomar posições em função das verdades, a maior parte das vezes de verdades que nos foram passadas pelos outros como sendo verdade. São as chamadas verdades em segunda mão ou verdades verdadeiras, porque é assim que os outros as vendem. Estas verdades em estado de uso são informações que recebemos de quem nos rodeia como qualquer coisa que temos que tomar como garantido, e formar logo ali e em cima do joelho um juízo tirado da ponta da língua a partir de factos que nem nós, nem a maior parte das vezes o nosso interlocutor alguma vez viu presenciou, cheirou, ouviu ou provou. E é precisamente por estas verdades que devemos usar da máxima cautela, ainda que quem as impinja nos assegure acreditar nelas.
A pertinência deste tema intensifica-se devido à febre desportiva que neste momento estamos a viver. As modalidades desportivas, independentemente da sua antiguidade, obedecem a certas ondas de entusiasmo a que se chamam modas. E à moda do Surf, sucedeu a nova moda que é a milenar prática desportiva de comentar a vida das outras pessoas. Para isto concorre a circunstância de que a verdade, além de ser altamente transaccionável, é também altamente subjectiva e muito mais sujeita a interpretação do que imaginamos, o que torna tudo mais interessante. É até relativamente fácil não cair na boca do mundo: é fácil porque basta cumprir na perfeição as expectativas dos outros. E é relativamente porque somos, ao fim ao cabo, humanos. Não fora o perdão e ficaríamos reduzidos a nada, condenados a viver isolados e afogados nas próprias culpas, tão humanas como nós.
De facto, como se costuma dizer relativamente à verdade, cada um tem a sua. O que é verdade para uns não o é para outros e isto começa a merecer a atenção dos cientistas noutras áreas. Veja-se os estudos sobre a fiabilidade do testemunho sobretudo das vítimas, que surgem em reportagens televisivas ou as palestras do TED dadas por investigadores cada vez mais descrentes no livre arbítrio. Certas pessoas merecem-nos maior confiança do que outras e muitas vezes essa diferença não tem a ver com fiabilidade mas sim com outros factores que escapam totalmente à capacidade ou bom senso dos visados. Acho que as coisas são assim porque a inteligência humana está sujeita a muitas outras forças além da lógica e da racionalidade. Se é difícil identificar esses elementos dentro da nossa própria cabeça imagine-se tentar determinar o grau de desconto a fazer sobre uma verdade em estado de uso que nos é passada por alguém que mal conhecemos!
Tudo isto concorre para que a prática da verdade seja considerada uma modalidade desportiva altamente técnica, como o golf ou o ténis, cujo apurar de movimentos exige muitas horas de dedicação, muitas mais do que a maior parte de nós estamos dispostos a dispensar no dia-a-dia alucinante dos tempos que correm. De facto, a verdade apresenta-se difícil porque devemos responsavelmente pôr em causa não apenas o que é duvidoso, como também o que nos é passado como verdadeiro. Nas palavras certeiras de Oscar Wilde “The pure and simple truth is rarely pure and never simple”. Outros há que desistiram pura e simplesmente da prática desportiva remetendo-se à praia ou à bancada, como António Arnaut que escreveu “a verdade é uma virgem ausente vestida com sete mantos de cores diferentes, e nenhum deles a desnuda, porque sob a última veste, a mais íntima, há ainda uma poalha translúcida, uma tortura de névoa, que é como um vento esquecido e cúmplice.”. E é bem capaz de ser verdade.
Mas a resposta à inquietação que neste momento deve estar a tomar conta do pobre leitor já em dúvida sobre se a verdade não passará de um sonho impossível, é a de que, condenados à nossa própria verdade, só nos resta fazer com que ela seja uma boa verdade, que ela seja uma verdade digna de apresentarmos a nós próprios.
E assim, a verdade acaba por ser uma opção. Uma opção de entre as múltiplas verdades possíveis que se nos apresentam a la carte, consoante as nossas necessidades e ou debilidades pessoais. É isto que acontece no dia a dia: quem é fraco da cabeça acaba por acreditar no que os outros lhes dizem. Quem sente pena de si próprio, sente que lhe falta qualquer coisa que não consegue atingir, com tendência para acreditar no que a torna mais interessante. Um exemplo disto é a ideia que estes muitas vezes fazem da pretensa vida mirabolante dos outros, a maior parte das vezes mais mirabolante do que os visados alguma vez sonharam. Temos por outro lado aqueles cujas consciências, carregadas com o peso da culpa, os levam a sentir invariavelmente o apelo a acreditar no que é mais confortável. A culpa pode tirar a paz de espírito a um santo e marcar toda uma vida com um chorrilho de pensamentos desnecessários e de repetida auto-punição. E daí que nesses casos a opção por qualquer coisa que evite o prolongamento desse sofrimento muitas vezes estéril, possa apresentar-se como uma boa opção. A rejeição também cria castelos, monstros, fadas madrinhas e princesas indefesas presas no cimo da torre mais alta. Apenas aqueles que não se preocupam demasiado com a opinião dos outros e não necessitam de se agarrar a nenhuma verdade em especial interessam-se por ver com os seus próprios olhos. Porque caso não o façam resta-lhes contentarem-se com a versão que de outros recebem em estado de uso, e cair no limbo da dúvida sem solução.
Pessoalmente, acho que antes de tudo, a verdade é qualquer coisa que se vive, é a alma do nosso jardim interior. Há entre nós os que sempre a souberam viver, os que ainda estão a aprender a vivê-la e os que simplesmente se estão a borrifar. E como um jardim, há que cuidá-lo, mantê-lo, regá-lo. E da mesma maneira que há ciência em manter um jardim também a verdade requer dedicação, atenção e esforço no expurgar de tudo o que lhe é exterior, tudo o que não foi encomendado, tudo o que é marginal, incidental e alheio. Para isso, é preciso fazer escolhas. A paz de espírito é de tal maneira importante que ao mesmo tempo em que devemos investigar de forma isenta e sensata o sentido da informação de que dispomos, também não nos podemos dar ao luxo de ter demasiadas dúvidas sobre o conteúdo nossa verdade, que acaba por se situar num lugar de compromisso entre o desejo de objectividade e a impossibilidade da objectividade absoluta. A ausência de certezas implica estabelecermos um acordo connosco quanto ao limite da incerteza confortável. E optarmos sempre individualmente, sempre por nós próprios. Porque é connosco que temos que prestar contas.
Trata-se de uma prática desportiva exclusivamente mental e em que o atleta actua individualmente e as quedas surgem frequentemente como brutais caneladas na nossa auto-estima. Mas com inegáveis frutos em benefício do nosso jardim, assim sublimemente descritos por Leonardo da Vinci: “It is the business of little minds to shrink, but they whose heart is firm, and whose conscience approves their conduct, will pursue their principles unto death.”.
A opção pela verdade implica conviver galantemente com a mentira sem que nos deixemos contaminar por ela, limitando-nos a cuidar construtivamente do nosso jardim, para que sejamos capazes de perdoar aos outros e a nós mesmos, e deixar que os todos possam dele colher os frutos das nossas árvores interiores. O desafio da verdade é condição essencial para que conservemos intacta a nossa capacidade de sonhar.
Esta ideia da verdade como escolha última, íntima e medida da liberdade de cada ser humano é rematada por Jorge Amado da seguinte maneira: “Afinal, digam-me os senhores com suas luzes e sua experiência, onde está a verdade, a completa verdade? Qual a moral a extrair desta história por vezes salafrária e chula? Está a verdade naquilo que sucede todos os dias, nos quotidianos acontecimentos, na mesquinhez e chatice da vida da imensa maioria dos homens ou reside a verdade no sonho que nos é dado sonhar para fugir de nossa triste condição? Como se elevou o homem em sua caminhada pelo mundo: através do dia a dia de miséria e futricas, ou pelo livre sonho, sem fronteiras nem limitações? Quem levou Vasco da Gama e Colombo ao convés das caravelas? Quem dirige as mãos dos sábios a mover as alavancas na partida dos esputiniques, criando novas estrelas e uma lua nova no céu desse subúrbio do universo? Onde esta a verdade, respondam-me por favor; na pequena realidade de cada um ou no imenso sonho humano?”.
JAO
Talvez por defeito de profissão, sempre me intrigou a verdade. Na vida, todos temos que tomar posições em função das verdades, a maior parte das vezes de verdades que nos foram passadas pelos outros como sendo verdade. São as chamadas verdades em segunda mão ou verdades verdadeiras, porque é assim que os outros as vendem. Estas verdades em estado de uso são informações que recebemos de quem nos rodeia como qualquer coisa que temos que tomar como garantido, e formar logo ali e em cima do joelho um juízo tirado da ponta da língua a partir de factos que nem nós, nem a maior parte das vezes o nosso interlocutor alguma vez viu presenciou, cheirou, ouviu ou provou. E é precisamente por estas verdades que devemos usar da máxima cautela, ainda que quem as impinja nos assegure acreditar nelas.
A pertinência deste tema intensifica-se devido à febre desportiva que neste momento estamos a viver. As modalidades desportivas, independentemente da sua antiguidade, obedecem a certas ondas de entusiasmo a que se chamam modas. E à moda do Surf, sucedeu a nova moda que é a milenar prática desportiva de comentar a vida das outras pessoas. Para isto concorre a circunstância de que a verdade, além de ser altamente transaccionável, é também altamente subjectiva e muito mais sujeita a interpretação do que imaginamos, o que torna tudo mais interessante. É até relativamente fácil não cair na boca do mundo: é fácil porque basta cumprir na perfeição as expectativas dos outros. E é relativamente porque somos, ao fim ao cabo, humanos. Não fora o perdão e ficaríamos reduzidos a nada, condenados a viver isolados e afogados nas próprias culpas, tão humanas como nós.
De facto, como se costuma dizer relativamente à verdade, cada um tem a sua. O que é verdade para uns não o é para outros e isto começa a merecer a atenção dos cientistas noutras áreas. Veja-se os estudos sobre a fiabilidade do testemunho sobretudo das vítimas, que surgem em reportagens televisivas ou as palestras do TED dadas por investigadores cada vez mais descrentes no livre arbítrio. Certas pessoas merecem-nos maior confiança do que outras e muitas vezes essa diferença não tem a ver com fiabilidade mas sim com outros factores que escapam totalmente à capacidade ou bom senso dos visados. Acho que as coisas são assim porque a inteligência humana está sujeita a muitas outras forças além da lógica e da racionalidade. Se é difícil identificar esses elementos dentro da nossa própria cabeça imagine-se tentar determinar o grau de desconto a fazer sobre uma verdade em estado de uso que nos é passada por alguém que mal conhecemos!
Tudo isto concorre para que a prática da verdade seja considerada uma modalidade desportiva altamente técnica, como o golf ou o ténis, cujo apurar de movimentos exige muitas horas de dedicação, muitas mais do que a maior parte de nós estamos dispostos a dispensar no dia-a-dia alucinante dos tempos que correm. De facto, a verdade apresenta-se difícil porque devemos responsavelmente pôr em causa não apenas o que é duvidoso, como também o que nos é passado como verdadeiro. Nas palavras certeiras de Oscar Wilde “The pure and simple truth is rarely pure and never simple”. Outros há que desistiram pura e simplesmente da prática desportiva remetendo-se à praia ou à bancada, como António Arnaut que escreveu “a verdade é uma virgem ausente vestida com sete mantos de cores diferentes, e nenhum deles a desnuda, porque sob a última veste, a mais íntima, há ainda uma poalha translúcida, uma tortura de névoa, que é como um vento esquecido e cúmplice.”. E é bem capaz de ser verdade.
Mas a resposta à inquietação que neste momento deve estar a tomar conta do pobre leitor já em dúvida sobre se a verdade não passará de um sonho impossível, é a de que, condenados à nossa própria verdade, só nos resta fazer com que ela seja uma boa verdade, que ela seja uma verdade digna de apresentarmos a nós próprios.
E assim, a verdade acaba por ser uma opção. Uma opção de entre as múltiplas verdades possíveis que se nos apresentam a la carte, consoante as nossas necessidades e ou debilidades pessoais. É isto que acontece no dia a dia: quem é fraco da cabeça acaba por acreditar no que os outros lhes dizem. Quem sente pena de si próprio, sente que lhe falta qualquer coisa que não consegue atingir, com tendência para acreditar no que a torna mais interessante. Um exemplo disto é a ideia que estes muitas vezes fazem da pretensa vida mirabolante dos outros, a maior parte das vezes mais mirabolante do que os visados alguma vez sonharam. Temos por outro lado aqueles cujas consciências, carregadas com o peso da culpa, os levam a sentir invariavelmente o apelo a acreditar no que é mais confortável. A culpa pode tirar a paz de espírito a um santo e marcar toda uma vida com um chorrilho de pensamentos desnecessários e de repetida auto-punição. E daí que nesses casos a opção por qualquer coisa que evite o prolongamento desse sofrimento muitas vezes estéril, possa apresentar-se como uma boa opção. A rejeição também cria castelos, monstros, fadas madrinhas e princesas indefesas presas no cimo da torre mais alta. Apenas aqueles que não se preocupam demasiado com a opinião dos outros e não necessitam de se agarrar a nenhuma verdade em especial interessam-se por ver com os seus próprios olhos. Porque caso não o façam resta-lhes contentarem-se com a versão que de outros recebem em estado de uso, e cair no limbo da dúvida sem solução.
Pessoalmente, acho que antes de tudo, a verdade é qualquer coisa que se vive, é a alma do nosso jardim interior. Há entre nós os que sempre a souberam viver, os que ainda estão a aprender a vivê-la e os que simplesmente se estão a borrifar. E como um jardim, há que cuidá-lo, mantê-lo, regá-lo. E da mesma maneira que há ciência em manter um jardim também a verdade requer dedicação, atenção e esforço no expurgar de tudo o que lhe é exterior, tudo o que não foi encomendado, tudo o que é marginal, incidental e alheio. Para isso, é preciso fazer escolhas. A paz de espírito é de tal maneira importante que ao mesmo tempo em que devemos investigar de forma isenta e sensata o sentido da informação de que dispomos, também não nos podemos dar ao luxo de ter demasiadas dúvidas sobre o conteúdo nossa verdade, que acaba por se situar num lugar de compromisso entre o desejo de objectividade e a impossibilidade da objectividade absoluta. A ausência de certezas implica estabelecermos um acordo connosco quanto ao limite da incerteza confortável. E optarmos sempre individualmente, sempre por nós próprios. Porque é connosco que temos que prestar contas.
Trata-se de uma prática desportiva exclusivamente mental e em que o atleta actua individualmente e as quedas surgem frequentemente como brutais caneladas na nossa auto-estima. Mas com inegáveis frutos em benefício do nosso jardim, assim sublimemente descritos por Leonardo da Vinci: “It is the business of little minds to shrink, but they whose heart is firm, and whose conscience approves their conduct, will pursue their principles unto death.”.
A opção pela verdade implica conviver galantemente com a mentira sem que nos deixemos contaminar por ela, limitando-nos a cuidar construtivamente do nosso jardim, para que sejamos capazes de perdoar aos outros e a nós mesmos, e deixar que os todos possam dele colher os frutos das nossas árvores interiores. O desafio da verdade é condição essencial para que conservemos intacta a nossa capacidade de sonhar.
Esta ideia da verdade como escolha última, íntima e medida da liberdade de cada ser humano é rematada por Jorge Amado da seguinte maneira: “Afinal, digam-me os senhores com suas luzes e sua experiência, onde está a verdade, a completa verdade? Qual a moral a extrair desta história por vezes salafrária e chula? Está a verdade naquilo que sucede todos os dias, nos quotidianos acontecimentos, na mesquinhez e chatice da vida da imensa maioria dos homens ou reside a verdade no sonho que nos é dado sonhar para fugir de nossa triste condição? Como se elevou o homem em sua caminhada pelo mundo: através do dia a dia de miséria e futricas, ou pelo livre sonho, sem fronteiras nem limitações? Quem levou Vasco da Gama e Colombo ao convés das caravelas? Quem dirige as mãos dos sábios a mover as alavancas na partida dos esputiniques, criando novas estrelas e uma lua nova no céu desse subúrbio do universo? Onde esta a verdade, respondam-me por favor; na pequena realidade de cada um ou no imenso sonho humano?”.
JAO

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