A música não é só o som. Não há música sem silêncio. A entrega é uma música brutal, que vem de dentro. E amar tem tanto de dar, proporcionar, providenciar como de omitir, de ter paciência, deixar ir.
Ela fala comigo com os olhos e com o seu sorriso paciente como se me guiasse pela mão, domando-me o ímpeto. O seu cabelo, ombros e sardas falam com o resto de mim obrigando me a ouvir nos seus gestos a linguagem paralela dos sentidos. No palco principal das conversas serpenteiam os assuntos do coração ao sabor do fluir do vinho, num discurso a dois cada vez mais profundo e desligado da realidade.
— O que é para ti o amor? Pergunto, enquanto sirvo novamente o vinho.
— Sabes, o amor não é nosso, é uma ideia divina difícil de aprender e que podemos ou não cultivar. Apenas as paixões são humanas, pois vêm das necessidades, das aspirações e se conjugam com manifestações fisiológicas básicas de não nos conseguimos libertar. Mas o amor não. O amor cultiva-se, educa-se, é um mundo onde a maioria de nós fica à porta e apreende apenas indirectamente, como na alegoria da caverna, porque tem filhos ou porque tem irmãos ou amigos, e os ama, incondicionalmente.
— Pois, mas não só não estás a responder-me como estás a deixar-me com água na boca… — digo.
— Calma menino! — Diz ela com um sorriso. — Está preparado? O amor é uma maneira de ver as coisas. É uma questão de perspectiva em que as coisas não existem em relação umas com as outras, mas em si mesmas, isoladamente. Para quem ama basta que o objecto do seu amor seja como é e se realize do modo que o tornou naquilo que é. Com a sua origem, o seu destino, as suas tendências aspirações e sobretudo a aceitação de que o objecto do seu amor não deve a sua amável existência à relação que estabelece com o que o envolve, em especial com o amante. Assim, para nós o amor é uma nova forma de valorar o que nos é exterior. Nova porque não é nem nossa nem natural em nós. Ama-se mais umas coisas ou pessoas do que outras. E quando se ama muito, o amor acaba por desaguar num estado de pura entrega.
— Não sei se com o que já bebemos vou conseguir acompanhar toda esta informação… o que é que eu fui perguntar… mas não é mais humano atender às relações que as coisas ou pessoas estabelecem umas com as outras e valorá-las tendo isso em consideração, também? Os outros e as suas circunstâncias também fazem parte do mundo em que vivemos e nem toda a gente é igual…
— Claro e por isso é que não amamos tudo e todos da mesma forma ou com a mesma intensidade. O amor puro e verdadeiro é querer o melhor para o objecto do seu amor. Querer o melhor e respeitar a sua individualidade própria. Aliás, quando amamos alguém temos admiração, achamos que aquilo está bem feito, achamos que aquela pessoa tem qualquer coisa de especial, qualquer coisa que não temos ou que não conseguiríamos reproduzir em laboratório. Por isso não há amor sem deferência pela individualidade própria do objecto do nosso amor. Quem ama diz “ele é extraordinário…” existirá amor sem respeito? Sim, só quando não o sabemos viver.
— Pois estou a ver. Acho que o problema é que estamos condenados a apreender a realidade através da relação, estamos habituados a relacionar tudo, e a relacionarmo-nos com tudo, provavelmente porque a nossa capacidade para apreender o mundo é limitada. As portas de entrada no mundo são os nossos cinco sentidos e a única maneira de apreender o que nos é exterior com coerência é através da relação, da associação de ideias. Daí que seja natural que o amor humano acabe por suscitar outras emoções como o sentimento de posse o ciúme e o desejo de manipulação.
— Pois é isso mesmo. Só que o que é mais fascinante em nós é que além da razão temos ainda o instinto e a espiritualidade. Quanto ao instinto, todos o têm e todos o usam. A razão por outro lado, todos a têm e nem todos a usam. A espiritualidade é que ao contrário das outras nem todos a têm e desses, nem todos dela fazem uso. E é a espiritualidade associada à razão que nos permite representar idealmente o amor tal como ele deve ser ou é em termos divinos e tentar aplicar aqui e ali na nossa vida pequenas porções, pequenos momentos de amor, em que o deixamos manifestar-se de uma maneira pura e genuína, quando amamos e temos os comportamentos o mais limpos e despojados possíveis de nós mesmos. A pura entrega é cristalina como a água e não deve ir turva para o outro com resquícios de nós, com egocentrismos agarrados.
— Então afinal amar é entregar-se?
— Não. A música não é só o som. Não há música sem silêncio. A entrega é uma música brutal, que vem de dentro. Amar tem tanto de dar, proporcionar, providenciar como de omitir, ter paciência, deixar ir. Aliás, muito do amor que podemos dar aos outros é sob a forma de abrir mão dos outros, deixá-los seguir o seu caminho se for caso disso e aceitar que escolham o seu caminho de realização pessoal.
— Gerir os silêncios e as ausências… não sei o que te diga. Que estou a ficar baralhado ou que te deves calar antes que me apaixone… — e a levantar o copo digo sorrindo — mas uma coisa te digo! És muito querida.
— É a melhor coisa que se ouviu este jantar. Também te gosto muito!
— À nossa!
Olhando para trás e no meio daquela divagação toda acho que ela realmente acertou na mouche. Às vezes parecemos mesmo umas crianças a aprender violino. estamos lindamente bem intencionados mas não fazemos a mínima ideia do que é que estamos a fazer com o instrumento. Só sabemos que é divertido. Muitas vezes estamos só perdidos sem fazer a mínima ideia da hora certa de tocar e parar. A vida também é assim: tem vários andamentos. E cabe-nos saber interpretar a melodia, e tocar no ritmo certo. E a cada passo saber alternar a hora certa de abraçar e a hora certa de libertar.
JAO

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