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terça-feira, 31 de maio de 2011

O desencontro


"acho que deves ser a mesma miúda que passou à frente do Vinicius quando ele passava de carro numa tarde de Dezembro em Ipanema, junto à marginal. Foi provavelmente por não ter tido tempo de parar o carro e correr atrás dela que não ficou a saber que se chamava Felismina. Deve ter sido melhor assim porque de outra maneira talvez a música não tivesse ficado tão conhecida… mas pensando bem, até faz sentido que uma miúda assim seja imortal!..."


E foi então que, vendo-a chorar, Bonifácio disse:

— Não fiques assim. Tu para mim és a miúda mais amável de todas. A única que mereceu ser chamada assim talvez porque nunca conheci outra Felismina. Por uma razão misteriosa qualquer e ao contrário do que acontece com o resto das pessoas, eu olho para ti e vejo imediatamente o imenso poder que aqui tens. Em fazer-me gostar-te sem te querer mudar, de me fazer feliz tudo o que te faça sorrir, de te querer proteger e ensinar tudo o que sei. É um dom, qualquer coisa anormal que me chega a assustar como quando estamos perto de uma serra eléctrica e sentimos a vertigem de estar junto a qualquer coisa que nos pode cortar em dois. Sabemos que basta um gesto para que o desastre se dê.
E nem conhecer-te melhor foi uma boa autodefesa, porque o que eu conheci desde o primeiro dia só serviu para te admirar ainda mais. Tu tens carácter, temperamento, sentes muito mas és forte. Feliz ou infelizmente, não sei muito mais sobre ti. Já me basta pensar constantemente: “estou lixado!”, cada vez que falo contigo...

Estas palavras totalmente inesperadas despiram a Felismina do seu autocontrolo tão típico, começando a soluçar, ao mesmo que tentava inutilmente reconquistar a sua compostura. E entre soluços disse-lhe:

— Mas eu não sinto nada disso Bonifácio… não me digas uma coisa dessas porque é mentira… sou descartada pelas pessoas que me são mais importantes como se não valesse nada!! São aqueles que sempre me deram tudo os que me fazem sentir como se não valesse nada… e eu não sei porque deverei acreditar nos outros porque não sei o que querem de mim, entendes?

Ele olhou-a nos olhos, sorriu e disse:

— És a maior. Não deixes ninguém te diga quem tu és. O que tu és é uma decisão tua. Vê-te na cara dos outros e não no que eles dizem.
Deixa-me pôr-te as coisas desta maneira: acho que deves ser a mesma miúda que passou à frente do Vinicius quando ele passava de carro numa tarde de Dezembro em Ipanema, junto à marginal. Foi provavelmente por não ter tido tempo de parar o carro e correr atrás dela que não ficou a saber que se chamava Felismina. Deve ter sido melhor assim porque de outra maneira talvez a música não tivesse ficado tão conhecida… mas pensando bem, até faz sentido que uma miúda assim seja imortal.
E é assustador porque o fascínio do que nos enche de vontade de distribuir, dar entregar, proporcionar, tem como contraponto o perigo de essa predisposição generosa e pronta para tudo não ser correspondida. Ver o que eu vejo e me leva a dizer estas coisas todas é tão extraordinário, tão raro, que o mais provável é veres-me como mais um, igual a tantos outros.
Eu também estou lixado com a vida. Estou lixado porque tenho a certeza que no meio disto tudo gostas de outro gajo e que esse coraçãozinho apertado não tem espaço para muito mais. E eu sei qual é a sensação de ter pessoas desejáveis que nos adoram, e nos percebem, e nos estimam, e nos admiram, e onde o nosso coração só vê rigorosamente nada. É um bocado triste pensar que a miúda mais amável me veja como essa pessoa óptima, maravilhosa e fantástica, mas a quem o coração não corresponde.

Levantou-se, pôs a mochila às costas e enquanto partia, despediu-se, dizendo:

— Mas a vida é feita destas coisas!! E eu não fui feito para sofrer como um poeta.
Senão escrevia em verso!…

JAO

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