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terça-feira, 31 de maio de 2011

Nadando com os tubarões invisíveis

— Cuidado que aqui há tubarões.
— Ai sim? É perigoso?
— Não, depende das alturas. Nós passamos o dia na praia...
— Pois. Mas eu queria ver se dava um mergulho no mar ainda hoje.
— Com este tempo?? Está frio…
— Eu venho do inverno da Europa, pá. Isto para mim é Junho. E a água aqui deve estar quente.
— Não está nada, a água está gelada!! Deve estar a uns 19-20 graus…
— Obrigado era mesmo isso que eu precisava de saber — disse, pensando no fato Bomb 4/3 que eu tinha à minha espera do outro lado do Atlântico, que tantas vezes me ajudou a enfrentar a hipotermia no mar de inverno.

Mesmo apesar de ser inverno e de ter passado o dia a chover, ao contrario do que é habitual por estas partes, no fim do dia dirijo-me à praia, de mochila às costas, logo depois de o sol se pôr. “Preciso de cumprimentar este lugar, à minha maneira.”.

Engraçada a rapidez da transição do asfalto da luz verde dos semáforos e do passeio para as dunas e por fim, a praia. Avanço pelas dunas e começo a atravessar o areal. Os meus sapatos afundam-se, desabituados ao calcar na areia, do dia passado a caminhar pelas ruas de Miami Beach, e levam me cada vez mais para perto da escuridão. Virado para o mar, penso que aqui até o barulho das ondas é diferente, como o são a temperatura do ar e a relação do mar com a cidade. Qual cidade? Apesar de ter prédios de trinta andares dez metros atrás de mim, não existe qualquer som. O mar está quase preto e o horizonte pouco distinto liga-se com o céu num encontro de duas gradações de azul escuro cada vez menos nítidas, cada vez mais mergulhadas na escuridão, e ainda mais carregadas pelas nuvens que durante o dia despejaram com uma fúria tropical.

No areal, a meio caminho do mar, olho para a esquerda e para a direita, como que a atravessar a estrada. Ao longe para a direita vejo duas luzes ao longe. Com o passar os segundos percebo que se dirigem na minha direcção e escondo-me prontamente atrás de uma caixa de guarda-sóis em madeira branca que jazia mesmo ali, no meio do areal. Em poucos segundos as luzes aproximam-se e vejo tratar-se de veículos todo o terreno da polícia de Miami a fazer o último varrimento diário das praias. “Só espero que não me vejam, não me apetece nada pagar uma multa macaca qualquer inventada por estes americanos malucos!!! Ainda me deportam como um prevaricador num avião cheio de indesejados de volta para a Europa... era mais o que me faltava.”. Mas a polícia passou sem me notar e por fim sentei-me sobre a caixa, aliviado.

Passado instantes era só eu e o mar outra vez. Parecia um puto, na praia, de vans, jeans, t-shirt e mochila ás costas, em pleno inverno das Caraíbas. Mas não valia a pena esperar para descobrir até que ponto é que a noite ali era escura. Não havia tempo a perder. Num ritual instintivo que em Portugal é habitualmente reservado aos parques de estacionamento junto do mar, ponho a toalha à cintura e começo a equipar-me. Fatinho de banho e aqui vai disto: corridinha à Zézé e mergulho à campeão. Estava óptima a água mas a falta de luz fazia de mim uma rolha tonta a balouçar nas ondas que me chegavam inesperadamente. Não sei o que era mais estranho: o voltar-me para terra e através dos aranha-céus ver os prédios iluminados, as pessoas ao longe na rua, os carros a passarem e a praia deserta, ou o olhar para o horizonte e ver as espumas fluorescentes que chegavam sem que eu desse pela sua aproximação e me atravessavam como se tratasse de um náufrago, atirando-me para cima e para baixo, sem aviso. “Tou vivo!”, pensei. E depois de várias braçadas no escuro parei voltado para o céu de tempestade e pensei nas saudades que eu já tinha dos meus filhos. E no bem que nos fazia eu estar ali, a voltar a beber da essência, para voltar para eles maior e melhor e mais feliz. Qualquer dia peregrinamos juntos meus queridos!...

À noite perguntaram-me como tinha sido o meu dia.
— Foi óptimo! Obrigado pela dica. Acabei por ir à praia dar um mergulho depois das minhas voltas, mas fui tarde acabou por ser uma sessão nocturna...
— À noite?? Mas ao fim do dia são as horas dos tubarões… é a altura em que se aproximam da costa para se alimentar… tiveste sorte.

Sorri e pensei que se não morri, não era para acontecer. Pode ser que tenha sido mais um daquela meia dúzia de episódios da minha vida em que só escapei por acaso. Pouco importa: estava ali, são e safo.

Estava vivo!!

JAO 

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