Sou um tipo que acredita no amor. Mas não no amor que se apregoa por aí de voz alta, nos cafés. Acredito no amor incondicional que nos leva a fazer besteiras, de rasgar a camisa como nas novelas venezuelanas. Daquele que nos faz dar um murro na mesa e depois virá-la ao contrário no meio da festa enquanto a tia Guida prova a sobremesa. No amor desinteressado irmanado e infantil entre um homem e uma mulher, com as mãos em posição de dar e os olhos postos no futuro... no amor que faz o mundo desaparecer e passar para segundo plano. No amor vivido em tolerância amor entrega e respeito, essas coisas que hoje em dia não se vê muito. Mas não é porque não existam... é porque dão trabalho. Custam a negociar, moldar, aprender. Porque implicam ceder, implicam convidarmos o outro ao fundo das nossas inseguranças, incertezas e hesitações, e implicam mergulhar no lado negro de quem gostamos, e regressarmos de amor intacto. Se já é raro sentirmos um amor verdadeiramente puro por alguém, que nos toque nas teclas todas e faça sentido nos cantos da nossa cabeça e em cada pedaço do nosso corpo, mais raro ainda é aprender, negociar e construir com quem nos corresponde, uma relação que justifique nada mais do que abdicar de tudo o resto.
O problema é que, quando um tipo se entrega assim, depois não se pode queixar de partir a mão na mesa, de ser expulso da festa, ou de a tia Guida ficar com a blusa cheia de nódoas.
Não nos podemos esquecer que, ao contrário do que acontece em zonas de conflito por esse mundo fora, onde os indivíduos estão culturalmente desligados da noção de amanhã, na realidade em que vivemos ninguém dispensa a sua bolha particular de segurança, as suas portas blindadas, fechaduras, trancas e trincos, os seus telemóveis e seguros de vida. Já ninguém viaja sem cinto de segurança, arrisca o pescoço pelos outros ou se atira de cabeça da prancha mais alta da piscina.
Salvo raríssimas excepções, anda tudo aí de crista tolhida pelo medo, acabou se o “shoot first, ask questions later…”. Fossem todos estes idealistas presos ao amor que sentem e todos soubessem resistir como uns valentes o que a vida tem para lhes atirar, os minutos, as horas em silêncio imersos em tempestade mental, os vexames sofridos e as desilusões causadas. E firmados sobre a certeza do que sentem, todos soubessem fazer das tripas coração por aqueles que amam e mutuamente se amar e perdoar e não desistir.
Porque no amor só se despreza quem desiste, pois é quem desiste que mais claramente revela a fraqueza e a sua própria falta de amor.
É que se por vezes o tempo é nosso amigo, e ajuda a suavizar o passado dorido amansando as feridas cheias de pus que as unhas e a água salgada não deixam sarar, outras vezes é só o tempo — e mais ninguém — que nos mostra aquilo que verdadeiramente sentimos, que nos dá as lições, que nos perdoa, e que nos dá a redenção de que necessitamos.
Sejamos portanto fiéis a nós próprios. Não sejamos condescendentes com o que é fácil ou com os nossos medos. E suportemos o bom que trazemos cá dentro, de cabeça erguida e o coração aberto.
JAO